A noite estava enevoada e fria. Triste e silenciosa.
Não tinha mais o que fazer. Sentia-se preso num calabouço , preso e enclausurado em meio à escuridão de uma situação sem saída. Sentado em sua cama, com os joelhos levemente dobrados e os cotovelos apoiados em suas coxas, ele entrelaçava os dedos das mãos e unia os polegares, com o olhar perdido e vazio, mirando o nada, mas indiferentemente voltado para o assoalho acarpetado de seu pequeno e isolado quartinho.
Estava com a posição ligeiramente curvada, como se os ombros lhe pesassem tanto que seria impossível manter a postura ereta de sempre. Suas costas formavam um estranho quarto de círculo devido à acentuação da inclinação dele, ficando exatamente parada, sem demonstrar uma oscilação sequer, já que ele estava ali parado de forma tão concentrada que os pequenos movimentos do corpo tinham cessado de maneira surpreendentemente anormal.
Seus cabelos - longos e castanhos - lhe caíam sobre o rosto em pequenos cachos largos e esparsos, que mal aguentavam o próprio peso e se desfaziam, como uma mola esticada excessivamente. Estes se mantinham em queda livre até atingir os ombros daquele homem, encontrando a limitação física de seu comprimento e então cessando sua queda, roçando as pontas no tecido branco desbotado da camiseta velha que ele trajava, indiferente de quão suja ela estava.
Sua pele apresentava sinais de maus tratos evidentes. Marcas de espinhas que não foram devidamente cuidadas dividiam espaço com um sebo característico de peles oleosas demais e alguns poucos e espalhados pelos de barba, mais finos que o normal, batalhando com alguns cravos e espinhas em formação por um lugar naquele rosto mal conservado e largo, bem diferente do da maioria dos homens na idade dele, acentuados e finos, expressivos e determinados.
Seus olhos se mantinham semi cerrados sob grossas e mal cuidadas sobrancelhas, que denunciavam uma ancestralidade rústica na árvore genealógica daquele homem. A barba mal feita e o cabelo cacheado-ondulado ajudavam a evidenciar ainda mais essa característica. Olhos de um castanho tão profundo jaziam há horas parados na mesma direção, sem um indício de brilho sequer. Pareciam secos, vítreos, indiferentes.
Suas olheiras eram visíveis de cara, não era preciso nem chegar perto para vê-las. Além das noites mal dormidas - por medo de ver o que mais temia - e da atenção excessiva que tinha que prestar, ele ainda sofria por ter chorado tanto quanto pode, apenas parando por já não ter mais de onde tirar sentimento para dar vazão a tantas e tantas lágrimas, tão salgadas e amargas que pareciam literalmente exprimir o sofrimento contido dele. E não só isso sendo já suficiente, como para ele lágrimas eram uma regalia extremamente rara e mal aproveitada, cada uma delas vindo carregada com tanto ódio e desprezo, com tanta solidão e descaso, com tanta dor e sofrimento, que qualquer uma delas poderia ser comparada a veneno, ou algum tipo de substância tóxica advinda de fontes declaramente inumanas, ou pelo menos tão nocivas a humanos que só o simples vislumbre delas seria capaz de trazer nojo ao seu infeliz espectador.
Seu corpo era tão mal cuidado como o rosto - traços marcantes do descaso que ele tinha para com ele mesmo e sua vida - último bem que ainda lhe restava genuinamente. Estava acima do peso, mas ainda assim era visível a força que ele tinha em seu corpo. Atarracado, denunciava sua força e novamente sua descendência, mas que agora de nada adiantavam, já que permanecia sentado e curvado, sentindo-se tão derrotado que nem a derrota que havia sofrido de fato era tão dolorosa quanto a que ele experimentava em sua mente.
Suspirou longa e profundamente, tentando retirar um último resquício de energia dentro da carcaça vazia que era seu corpo. Em vão, já que tudo o que tinha dentro de si, além de um amontoado de vísceras trabalhando continua e desesperadamente para manter aquele ser sem vida ainda se movendo, era um aglomerado sem forma de sentimentos inomináveis, devido ao número de repetição da experimentação deles. Tanto e tanto ele havia sentido cada um que por fim eles acabaram se transformando e mesclando-se uns aos outros, gerando nele uma criatura irreconhecível e aberrante, tão repugnante quanto seu hospedeiro repulsivo.
Então, pela primeira vez em horas, retirou o olhar do chão coberto pelo carpete de cor verde-musgo. Elevou o rosto lentamente, de forma pesarosa e difícil, usando incrivelmente todas as poucas forças que ainda lhe restavam espalhadas pelos músculos e mirou a parede. Um novo suspiro percorreu os caminhos sinuosos de seu corpo até verificar que mais nada ali restava além da criatura vil que crescia lhe sugando as forças.
Tirou os cotovelos das coxas e desentrelaçou os dedos, dobrando-os e sentindo-os estalar de forma sonora, já que estavam há horas naquela mesma posição quase meditativa. Pôs as mãos nos joelhos e apoiou-se neles para levantar, tirando o corpo da cama e ficando em seguida de pé por alguns segundos. Esticou os braços e então pode sentir uma fortíssima cãibra atacando ao mesmo tempo todos os músculos do corpo, que, quase como em rebelião, inflamavam-se e latejavam, como se reclamassem de terem sua função de garantir o movimento proibida. Porém isso para ele era nada, já que uma simples dor física sequer alcançaria o patamar da enorme dor que sentia em seu coração.
A tal criatura formada pela mistura das virtudes enegrecidas dele tomava o controle de seu pequeno e destroçado coração, de modo a cegar-lhe para tudo o que tinha a sua volta. Olhava para o seu quarto e não via absolutamente nada. Porém, aos olhos de qualquer outro, tantas coisas podiam ser vistas que qualquer um acharia ele louco. Mas a verdade era cruel. Para ele, nada daquilo tinha sentido. Nada daquilo valia a pena.
Tinha uma cama boa e confortável, com um lençol parcialmente limpo e travesseiros fofos emaranhados junto com um edredon grosso. Jamais morreria de frio ou sentiria sono por dormir mal. Tinha roupas, não muitas, mas o bastante para serem usadas, e todas ao seu gosto. Nada muito chamativo, tudo conforme os gostos dele. Dispunha de um computador bom e de periféricos, todos em bom estado. Ainda tinha uma família que, mesmo não sendo boa com ele, sustentava-o e lhe garantia abrigo, casa, comida e roupas lavadas. Tinha onde morar, o que comer, o que vestir, sustento básico e algumas poucas regalias. Uma vida boa até.
Mas nada disso valia a pena. Ele estava morto por dentro. O que ele realmente queria, ou melhor, o que ele realmente precisava, não era um amontoado de bens materiais e calculáveis. Não precisava - nem queria - uma família que o sustentava de forma mecânica e simplista. Não queria tudo aquilo, apenas ferramentas para mantê-lo preso e uniforme perante à sociedade na qual vivia. Jamais havia desejado estar ali, e não entendia o porque de ter de se conformar com aquilo se estar ali jamais fora uma opção, uma escolha, e sim uma imposição.
Precisava sim de amor. De carinho. De atenção. De compreensão. De afeto. De ternura. De complacência. Precisava de coisas que não podiam ser mensuradas como uma boa condição financeira ou social. Precisava de coisas que não podiam ser contadas ou vistas, sequer quantificadas de algum ou qualquer outro modo conhecido pelo homem, fosse lógico ou não, racional ou não. Precisava do intangível, do inatingível, do transcendental, do eterno, do estático, do imutável. Precisava de um chão, de algo no qual pudesse se firmar, de um solo firme para poder dar suas passadas trêmulas e incertas, abarrotadas de medos e pesares vis. Precisava estar arraigado numa verdade tamanha na qual nada, nem ninguém, até mesmo seus medos e sofrimentos, até mesmos seus inimigos - idealizados ou não - pudesse sequer chegar a estremecê-la, nem tocá-la. Ele precisava de um berço, uma fonte, uma fortaleza, um castelo de paredes e muralhas infindáveis e intransponíveis, nas quais ele encontraria o conforto real de uma vida irreconhecível até então, apenas fundamentada no que é petrificado e imutável, no que é real, no que ele jamais poderia perder. Ele precisava, sobretudo, de se sentir seguro, vivo. Ele precisava ter uma certeza.
Mas nada disso lhe era garantido até então. Tudo o que ele realmente tinha era fraco. Era como se vivesse sempre na beira do precipício, em cima de uma pedra que estivesse sempre prestes a rolar. Uma pedra completamente grosseira e hostil, de formas pontiagudas e inconcebíveis para sua morada, porém sempre se apresentando perfeitamente esférica quando qualquer coisa ameaçasse derrubá-la e jogá-la montanha abaixo, levando consigo ele e sua vida despedaçada, repleta de sentimentos aberrantes e disformes. Era impressionante para ele como tudo em sua vida, por mais certo que pudesse parecer, sempre estava prestes a ruir, sempre estava prestes a se mostrar mais uma de suas ilusões maldosamente plausíveis.
Deu o primeiro passo, o que fez com que a dor se espalhasse por todo ele novamente. Não ligou, já que essa dor quase não lhe era mais importante. Foi até a escrivaninha onde repousava seu computador e pôs a mão em cima da madeira gélida e morta. Passou os dedos e notou uma fina camada de poeira, que agarrou-se a seus dedos quase como cola. Esfregou o polegar em cada um deles e livrou-se da sujeira incômoda. Observou os grãos de poeira caírem no chão, iluminados pelo forte e intenso luar. Aquilo era um ciclo: a sujeira que cobria a escrivaninha cobriria o chão, que iria para fundo da cama, que, com uma lufada inocente de vento, voltaria para a escrivaninha, e assim sucessivamente. E que não fossem os mesmos grãos, que fossem outros, o quarto, mesmo que limpo uma vez, voltaria a ficar sujo. E o ciclo se repetiria, até que ele morresse, para que o quarto permanecesse, para que a sujeira permanecesse. Era uma batalha inútil.
E não é assim a vida? Uma batalha inútil contra as desgraças que se abatem sobre nós? Era como se ele vivesse num mundo coberto por uma escuridão sem fim, e o ponto onde ele estivesse seria uma única fogueira, alimentada por uns poucos e mal colhidos galhos de madeira seca. A fogueira estava quase sempre se apagando, e necessitava de constante alimentação. Sua família se encarregava de obter a madeira, enquanto ele permaneceria ali, a salvo da escuridão sem fim num único pontinho efêmero de esperança. Até que um dia sua mãe não voltaria. Nem seu pai. Na tentativa de buscar mais lenha para a fogueira rudimentar e bruxuleante, eles se perderiam na escuridão, até que ele desse por falta e chorasse. Em vão, pois esse é o destino de tudo que é vivo: morrer anônimo em meio a vastidão enegrecida de um universo que não se importa com mais um de seus entes vivos separados e pouco importantes. E então seria a vez dele de alimentar a fogueira. Até que achasse outra fogueira e se unisse a outra pessoa para alimentarem juntos uma nova fogueira, para terem novas crias, que passarão a mesma idéia fútil de vida: uma eterna batalha inútil contra um destino cujo qual não há escapatória. A vida não tem sentido.
O destino de tudo é acabar envolto em trevas e propelido apenas pelo desejo infantil de fugir da dor e do sofrimento. Ele sabia disso, e assim fora a vida dele desde então. Sabia que limpar a sujeira não adiantava, mas continuava limpando-a. Sabia que alimentar aquela fogueira era inútil, mas continuava a jogar nela uma madeira qualquer conseguida em meio a um mundo hostil e competitivo. E o sofrimento maior vinha de não ter nada além disso: um ideal vazio, que não era dele, imposto por outros. A vida era um cárcere no qual você só sairia se morresse após sofrer toda a pena. A prisão perfeita, na qual a única fuga simples implicaria num sofrimento tamanho que desencorajava sua tentativa.
E era pior para ele, pois sofria mais ainda. Era sozinho. Triste. Sem amigos. Com uma família decadente e egoísta. A limpeza que ele fazia - não contra a sujeira, mas contra sua dor - era sozinha e em vão. O pior nem era estar sozinho de companhia e ser levado por um grupo familiar distante e deslocado. O pior era não ter o que precisava. O pior era não ter todo o amor do qual necessitava em sua vazia vida. De fato o que empurraria ele a viver era o amor. O que impulsiona qualquer um é o amor. E ele não o tinha. Mantinha-se uma carcaça vazia.
Percebeu que o luar subia mais alto no céu. Há quantas horas estaria ali? Talvez até mesmo por dias ele estivesse trancado. Não sabia, pois a dor e o sofrimento eram tão forte sem sua mente que só via a dor de estar perdido e sem vida. Estava surdo para os outros, cego para o que tinha e mudo para expressar-se. A surdez era porque nada em sua vida atual poderia salvá-lo, logo, perder tempo ouvindo que ele precisava viver era inútil. A cegueira era porque nada do que tinha lhe era útil ou dotado de algum valor realmente bom. E a mudez fora causada pelo vislumbre do fim de esperança. Não podia dizer a ninguém que a vida era sem sentido, senão todos os quartos ficariam sujos, senão todas as fogueiras se apagariam instantaneamente! Talvez fosse um resquício de bons sentimentos ainda viventes nele. Ou talvez fosse a tal criatura de retalhos de sentimentos, esperando trazer mais pessoas para o fundo do poço com ele, apenas deixando que sofressem mais. Talvez todos tivessem uma criatura dessas em seus corações, que só apareceria caso as pessoas fossem abandonadas à própria depressão, como ele.
Andou até a luminosidade vinda da janela e que caía no meio do quarto e sentiu a dor da luz penetrando suas pupilas largamente dilatadas, mas novamente ignorou. A luz da lua era como um caminho a ser seguido, levando-o para o paraíso eterno, livre da dor e do sofrimento. Ou talvez uma ponte ilusória, que serviria como truque para fazer todos seguirem ela e caírem num pântano lodoso, que lentamente tragaria-os para um fim doloroso, lento e inevitável. Fosse o que fosse, não importava, já que uma hora ou outra todos se livrariam do cárcere da vida, fosse pelo sofrimento concentrado num único instante ou o parcelado numa vida inteira de dor.
Olhou para a janela e viu as trevas caindo do céu e cobrindo tudo. Do meio do quarto observava a abertura na parede, tampada pelo vidro e pela madeira que recobria as pontas. Um vento frio e desagradável entrava pelo cômodo, um prenúncio de que a noite pioraria mais ainda e se tornaria mais fria e morta.
Deu uns poucos passos para frente, até que a luz deixasse de iluminar seu rosto pálido e sofrido e começasse a iluminar seu peito. Pôs as mãos na parede e a cabeça levemente para fora do quarto. Respirou o ar noturno, aquele mesmo ar morto que trouxera o prenúncio decadente de uma noite gélida e de um dia ainda pior. Sentiu, por uns instantes, um sorriso tomando o rosto. Fora mais um lapso de esperança. Porém, o sorriso tornou-se vazio, mesmo permanecendo no rosto. A sujeira havia vencido. Sua fogueira havia apagado naquele exato instante.
Mirando o céu sem estrelas, desejou por um instante que tivesse coragem de andar até aquela janela...

Se ele era velho, msmo não sendo velho, porque ele não tinha cabelos brancos? HUM
ResponderExcluirOras, se ele não podia andar, alguém poderia entrar no quarto, e empurrar ele janela á fora, não é? u.u
Sempre tem algum psicótico pentelho para salvar ele. u.ú
[/comentários]
..Não gostay da família dele.[/comentários]
..Não sei se ele é forte ou fraco, parece estar lutando por ter desistido. .-.
A vida não tem sentido.
ResponderExcluirAinda bem. Se tivesse, a angústia por estarmos presos a esse sentido seria mais insuportável do que o vazio libertino da insignificação.