O que as vezes pode até parecer impossível torna-se visível quando a situação demanda que sua necessidade se faça presente.
Até que você precise, você jamais irá entender qual o significado do silêncio em sua vida.
Isto assim é porque o silêncio é visto somente como a ausência, quando na verdade também pode ser a manutenção da presença.
Pedras, árvores, gramados, animais, mares, lagos, oceanos, o céu... Tudo isto mantém-se em silêncio o tempo todo, nem por isso se tornam esquecíveis ou ignoráveis. Pelo contrário. Lembra-se às vezes mais do céu, do mar e das florestas, do que aqueles que vivem a falar todos os dias para os que escutam, mas não ouvem.
A resposta mais arrebatadora as vezes não vem de palavras intensas ou ofensivas, mas de um simples momento de silêncio, que pode ser mais fatal que a mais terrível das frases existentes.
A música mais bela as vezes não vem de uma sinfonia bem arranjada, composta por um gênio tão comum quanto eu ou você, mas sim da total falta de sons, ritmados ou não, belos ou não. Apenas o fato de tudo que transgride o silêncio sumir de uma vez só e deixar o verdadeiro belo se manifestar é o suficiente para vislumbrarmos, por um breve momento, a verdadeira razão para o silêncio ser a mais bela das canções.
A contemplação mais bela da natureza não é feita quando há alguém lhe mostrando o caminho, quando há algo a mais entre essa percepção, quando tem que se fazer um esforço forçado e doloroso, mas sim quando não há nada para atrapalhar, apenas o silêncio regendo sua orquestra secreta, nos guiando para a iluminação da percepção de um momento verdadeiramente real e sublime.
É difícil, complicado, por vezes impossível. Mas, às vezes até mesmo em meio ao caos de mil diferentes sons, podemos escutar o silêncio.
Ele grita. Ele chora. Ele berra. Irrompe do meio de tudo que o acoberta para se mostrar ali, presente, digno de ter um pouco de atenção dada a ele.
O problema não está em ouví-lo, e sim em saber como se faz para ouvir algo que passa desapercebido.
O silêncio nem sempre vem na forma da falta de som.
Assim como todos pensam, o silêncio é também a ausência.
Mas não é só a ausência ordinária que é passada de um para o outro, como se fosse a simples falta de sons.
As vezes não ouvimos o silêncio do outro.
As vezes não ouvimos o silêncio das coisas.
E nunca ouvimos o nosso próprio silêncio.
O castigo por cometermos tamanho erro é deixarmos passar a resolução óbvia de grande parte de nossos problemas. Não ouvir, não prestar a devida atenção, não ceder - seja tempo, boa vontade ou amor - a um outro alguém que precisa, ou até mesmo a nós mesmos, nos faz não ver que os nossos problemas nascem muitas vezes dessa negligência.
Negligenciar o silêncio é negá-lo de uma forma tão triste que chega a ser estúpida.
Portanto, escute o silêncio. Dê a si mesmo um momento consigo.
Longe de pensamentos, longe de preocupações. Medite. Entre em contato com o seu mais profundo eu. Alheio a crenças, opiniões, conjunturas, fé, o que for. Escute o que você tem a dizer a si mesmo. Se acredita que tem uma alma, escute-a. Se acredita que é energia pura, sinta ela fluindo em você. Se acha que só existe sua mente, esqueça o que há nela e cave bem fundo na mesma, até se perder dentro de você.
E escute o silêncio.
E então, escute tudo à sua volta.
Escute como cada pausa entre a fala das pessoas gera um momento de equilíbrio entre tudo. Escute como a natureza mantém seu ritmo incessante, mesmo com o interferir constante dos humanos. Escute como entre cada nota de musical há um breve momento onde o som se dissipa, e entre todas as outras notas, de todos os instrumentos, surge uma unidade incapaz de ser percebida com um exame superficial da vida. Perceba que o silêncio está por trás de cada som, como o antagonismo dele, arraigado nele, colado nele, como a outra face de uma moeda, porém esquecida. Sem um não há outro.
E então, quando perceber isso, escute o silêncio do outro.
Dê-se a oportunidade de observar como as pessoas preferem o silêncio à dizer algo concreto. Perceba como abandonar uma conversa as vezes é um modo de deixar claro que ela continua, mas não com palavras, e sim com sentimentos, manifestados por gestos e maneirismos. Entenda que não responder é também uma resposta. Vislumbre a infinita capacidade de uma pessoa de não lhe dizer nada com palavras, mas te fazer entender tudo com um silencioso e discreto olhar.
Quando entender isso, quando finalmente tiver escutado o silêncio, você achará a resposta.
Mas não ache que ela deva ser compartilhada. Não da forma comum, não como normalmente faríamos. Porque a verdadeira compreensão do que é escutar o silêncio através da torrente inimaginável de infinitos sons não é traduzida por simples palavras, mas pela experiência de um outro momento de igual profundidade, como o anterior.
Então, olhe para a pessoa. Toque-a se quiser, de maneira delicada. Já entendeu o seu silêncio, o silêncio das coisas e o silêncio dela.
Passe tudo o que você aprendeu sem dizer uma palavra sequer.
E não se esqueça, jamais, de escutar o silêncio.
"It truly makes the most beautiful music.
Everything it has to give.
It's everywhere hidining the listener.
Without it, I could not live...
Silence."
Sonata Arctica - ... of Silence

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