segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Psicóloga Francesa defende infidelidade masculina



Uma das mais famosas psicólogas francesas causou polêmica ao defender, em um livro recém-lançado, que a infidelidade masculina é boa para o casamento. No livro Les hommes, l'amour, la fidélité ("Os homens, o amor, a fidelidade"), Maryse Vaillant diz que a maioria dos homens precisa de "seu próprio espaço" e que para eles "a infidelidade é quase inevitável".   "



Essa notícia tem um bom tempo que foi lançada. Lembro de tê-la lido no jornal e, a princípio, ficar idiotizando por uns segundos até finalmente começar a pensar sobre o assunto de fato. Na verdade não foi nem questão de segundos, mas sim de dias. Eu a li e simplesmente ignorei, apesar dela ter ficado em mente. Depois, peguei o jornal novamente e li com calma, para de fato começar a ter nojo do que eu estava lendo.


Infelizmente a mulher é uma Psicóloga, e eu como um estudante de Psicologia ainda não posso sequer pensar em rebater os argumentos dela usando fogo contra fogo. Logo é tudo uma questão de opinião e alguns argumentos que me pareceram não passar pela cabeça dessa mulher quando ela resolveu escrever um LIVRO como praticamente uma salvaguarda para as traições vindouras nas vidas das pessoas desavisadas.


Ela diz que a traição para os homens funciona como uma espécie de "manutenção de um espaço próprio", e que este é inevitável para a manutenção de um casamento em si. E foi nessa parte que começou a me incomodar.


Tá. Biologicamente existem motivos para a questão da "infidelidade" masculina. Tudo bem, até podemos considerar. Na Evolução, a lei que reina é crescer, reproduzir e multiplicar a espécie. Dessa forma, você tem a criação dos haréns, onde os machos alfa dominam um grupo de fêmeas que ele usa para procriar. E, como a fêmea fica um certo tempo com a prole no útero, fica impossibilitada de procriar, mas o macho não. Então ele fica apto a copular mais vezes, aumentando o número de proles e voilá, a mágica está feita.


Tirando a parte do harém e adicionando uns oito meses para a gestação dos humanos, temos basicamente o mesmo processo: A nossa função é procriar, e por isso procuramos as unidades familiares menores (ou seja, os casais). Porém, quando a mulher engravida, o homem fica livre e inevitavelmente a natureza fará o seu chamado para procriar. E mesmo quando a parceira não engravida, mesmo que eles usem proteção, a regra é o macho espalhar sua "semente" no máximo de fêmeas possíveis, já que, apesar da falta da prole e da gravidez, é um sentido natural. Isso explica o fato dos homens serem naturalmente tarados, é um mecanismo para "forçar" o sexo e causar a reprodução.


Uma ressalva: Não quero expor as mulheres como passivas no processo. Elas também sentem tesão por mais de um homem, é perfeitamente normal. Porém com as mulheres há todo um ar de "emocionalidade", que na verdade é a resposta biológica da necessidade de um macho fixo para cuidar da fêmea. Voltando ao harém, onde um macho comanda várias fêmeas, ou aos núcleos familiares, onde temos um macho junto da fêmea e da prole.


Enfim, o que acontece é que, biologicamente, o homem até teria motivos para trair. Ainda mais na espécie humana, onde a gestação da prole é de 9 meses, fora o fato dela só poder se virar na nossa sociedade com certa autonomia com, pelo menos, uns 14 / 15 anos, o que ocasiona um laço maior entre macho e fêmea e, consequentemente um chamado natural à infidelidade cada vez maior. Logo, até seria plausível desse ponto.


Até agora parece que eu apenas confirmei o que a Psicóloga disse, mas é justamente nesse ponto que eu preciso chegar para discordar.


Ela cita que a fidelidade não é de fato natural, mas sim uma convenção social. E, por isto, não deveria ser encarada de forma tão radical.


É exatamente ai que o bicho pega e que eu me emputeço.


Sendo seres altamente sociais e sociáveis, e com o acréscimo do fato de termos uma sociedade tão complexa e intrincada que a natureza JAMAIS viu igual, beirando até mesmo o corajoso patamar de antinatural, nós humanos criamos outras condições, que, apesar de terem origem de fato na biologia, perpassam ela de tal forma que mantém apenas suas raízes nela, indo mais além do que o que se esperaria.


Logo, temos que o fator natural não pode ser mais tão usado como desculpa.


Isso porque ela nem citou a Biologia da coisa, eu que resolvi citar por desencargo de consciência. Onde eu realmente quero chegar é: Se temos convenções sociais, sejam elas de mídia ou não, são coisas que NÓS MESMOS criamos, e que simplesmente decidimos por seguir OU NÃO! Eu mesmo uso cabelos grandes sendo homem e sin to uma forte repressão social por isso, mas quem liga? E apenas uma convenção, não é?


E exatamente por isso que me deixa puto ela falar quer fidelidade é convenção. Fidelidade é algo que se escolhe, não é obrigado, mesmo que a midiatização das relações amorosas seja tamanha que nos force a termos uma fidelidade forçada. 


Parece confuso o que eu estou dizendo (e de fato é), mas o ponto é simples:


Todos sabem o que sentem, todos sabem que sentem tesão por mais de um. Mas o amor, justamente por sermos mais complexos que animais, é mais do que apenas um impulso biológico ou um conjunto de convenções midiáticas. O amor é a necessidade de estar junto, é a necessidade de ter alguém do lado. É a salvaguarda de que você não vai morrer completamente sozinho sem antes ter tido alguém do seu lado, seja até o leito de morte ou por pelo menos alguns meses.


Logo, quem escolhe amar e se casar, tem que o fazer SABENDO das convenções sociais que permeiam a relação. É o MÍNIMO que se espera de quem se casa, já que por lei é preciso ser maior de idade para se casar, o que sugere (apenas sugere, infelizmente não é regra), que a pessoa tenha algo na cabeça além de orelhas e cabelo. Portanto, quem namora / noiva / se casa tem que ser fiel, senão NÃO ESTARÁ namorando / noivando / se casando / mantendo casamento. 


Esse livro me emputeceu porque me parece que é uma desculpa para a infidelidade, coisa que eu repudio com um nojo tremendo. Dizer que o homem precisa até é uma atitude louvável. Imagino se no meio de um casamento a relação estiver desgastada e o homem precisar procurar outra pessoa, isso até realmente pode acontecer, e de fato acontece. 


A foda é veicular isso para um público!


São POUQUÍSSIMAS as pessoas que são realmente fiéis. E justamente por isso que esse livro vai ser uma merda. Quem é "fiel" que trai e esconde ou que usa as desculpas biológicas ou sociais vai ter mais uma desculpa na lista para trair.


O que me deixa chateado é a falta de maturidade das pessoas ao se relacionarem. Isolando "acidentes de percurso" (estar realmente bêbado e trair, ser atacado por alguém sem necessariamente querer ficar com a outra pessoa, estar EXTREMAMENTE carente e sem poder estar com a pessoa que se ama [apenas estando de bem com ela, estando de mal sugere uma vingança ou até mesmo um simples ato de covardia ou incapacidade de pedir desculpas] ) ou outras situações aceitáveis que não se encaixem no que eu citei, todas as traições são dignas de pena e raiva. A partir do momento que você sela um relacionamento, você já está assinando um pacto de fidelidade óbvio e silencioso.


Espero que esse livro não faça o mínimo sucesso.


Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1430509-5603,00.html

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

...para finalmente encontrar a morte.

A noite estava enevoada e fria. Triste e silenciosa.


Não tinha mais o que fazer. Sentia-se preso num calabouço , preso e enclausurado em meio à escuridão de uma situação sem saída. Sentado em sua cama, com os joelhos levemente dobrados e os cotovelos apoiados em suas coxas, ele entrelaçava os dedos das mãos e unia os polegares, com o olhar perdido e vazio, mirando o nada, mas indiferentemente voltado para o assoalho acarpetado de seu pequeno e isolado quartinho.


Estava com a posição ligeiramente curvada, como se os ombros lhe pesassem tanto que seria impossível manter a postura ereta de sempre. Suas costas formavam um estranho quarto de círculo devido à acentuação da inclinação dele, ficando exatamente parada, sem demonstrar uma oscilação sequer, já que ele estava ali parado de forma tão concentrada que os pequenos movimentos do corpo tinham cessado de maneira surpreendentemente anormal.


Seus cabelos - longos e castanhos - lhe caíam sobre o rosto em pequenos cachos largos e esparsos, que mal aguentavam o próprio peso e se desfaziam, como uma mola esticada excessivamente. Estes se mantinham em queda livre até atingir os ombros daquele homem, encontrando a limitação física de seu comprimento e então cessando sua queda, roçando as pontas no tecido branco desbotado da camiseta velha que ele trajava, indiferente de quão suja ela estava.


Sua pele apresentava sinais de maus tratos evidentes. Marcas de espinhas que não foram devidamente cuidadas dividiam espaço com um sebo característico de peles oleosas demais e alguns poucos e espalhados pelos de barba, mais finos que o normal, batalhando com alguns cravos e espinhas em formação por um lugar naquele rosto mal conservado e largo, bem diferente do da maioria dos homens na idade dele, acentuados e finos, expressivos e determinados.


Seus olhos se mantinham semi cerrados sob grossas e mal cuidadas sobrancelhas, que denunciavam uma ancestralidade rústica na árvore genealógica daquele homem. A barba mal feita e o cabelo cacheado-ondulado ajudavam a evidenciar ainda mais essa característica. Olhos de um castanho tão profundo jaziam há horas parados na mesma direção, sem um indício de brilho sequer. Pareciam secos, vítreos, indiferentes.


Suas olheiras eram visíveis de cara, não era  preciso nem chegar perto para vê-las. Além das noites mal dormidas - por medo de ver o que mais temia - e da atenção excessiva que tinha que prestar, ele ainda sofria por ter chorado tanto quanto pode, apenas parando por já não ter mais de onde tirar sentimento para dar vazão a tantas e tantas lágrimas, tão salgadas e amargas que pareciam literalmente exprimir o sofrimento contido dele. E não só isso sendo já suficiente, como para ele lágrimas eram uma regalia extremamente rara e mal aproveitada, cada uma delas vindo carregada com tanto ódio e desprezo, com tanta solidão e descaso, com tanta dor e sofrimento, que qualquer uma delas poderia ser comparada a veneno, ou algum tipo de substância tóxica advinda de fontes declaramente inumanas, ou pelo menos tão nocivas a humanos que só o simples vislumbre delas seria capaz de trazer nojo ao seu infeliz espectador.


Seu corpo era tão mal cuidado como o rosto - traços marcantes do descaso que ele tinha para com ele mesmo e sua vida - último bem que ainda lhe restava genuinamente. Estava acima do peso, mas ainda assim era visível a força que ele tinha em seu corpo. Atarracado, denunciava sua força e novamente sua descendência, mas que agora de nada adiantavam, já que permanecia sentado e curvado, sentindo-se tão derrotado que nem a derrota que havia sofrido de fato era tão dolorosa quanto a que ele experimentava em sua mente.


Suspirou longa e profundamente, tentando retirar um último resquício de energia dentro da carcaça vazia que era seu corpo. Em vão, já que tudo o que tinha dentro de si, além de um amontoado de vísceras trabalhando continua e desesperadamente para manter aquele ser sem vida ainda se movendo, era um aglomerado sem forma de sentimentos inomináveis, devido ao número de repetição da experimentação deles. Tanto e tanto ele havia sentido cada um que por fim eles acabaram se transformando e mesclando-se uns aos outros, gerando nele uma criatura irreconhecível e aberrante, tão repugnante quanto seu hospedeiro repulsivo.


Então, pela primeira vez em horas, retirou o olhar do chão coberto pelo carpete de cor verde-musgo. Elevou o rosto lentamente, de forma pesarosa e difícil, usando incrivelmente todas as poucas forças que ainda lhe restavam espalhadas pelos músculos e mirou a parede. Um novo suspiro percorreu os caminhos sinuosos de seu corpo até verificar que mais nada ali restava além da criatura vil que crescia lhe sugando as forças. 


Tirou os cotovelos das coxas e desentrelaçou os dedos, dobrando-os e sentindo-os estalar de forma sonora, já que estavam há horas naquela mesma posição quase meditativa. Pôs as mãos nos joelhos e apoiou-se neles para levantar, tirando o corpo da cama e ficando em seguida de pé por alguns segundos. Esticou os braços e então pode sentir uma fortíssima cãibra atacando ao mesmo tempo todos os músculos do corpo, que, quase como em rebelião, inflamavam-se e latejavam, como se reclamassem de terem sua função de garantir o movimento proibida. Porém isso para ele era nada, já que uma simples dor física sequer alcançaria o patamar da enorme dor que sentia em seu coração.


A tal criatura formada pela mistura das virtudes enegrecidas dele tomava o controle de seu pequeno e  destroçado coração, de modo a cegar-lhe para tudo o que tinha a sua volta. Olhava para o seu quarto e não via absolutamente nada. Porém, aos olhos de qualquer outro, tantas coisas podiam ser vistas que qualquer um acharia ele louco. Mas a verdade era cruel. Para ele, nada daquilo tinha sentido. Nada daquilo valia a pena.


Tinha uma cama boa e confortável, com um lençol parcialmente limpo e travesseiros fofos emaranhados junto com um edredon grosso. Jamais morreria de frio ou sentiria sono por dormir mal. Tinha roupas, não muitas, mas o bastante para serem usadas, e todas ao seu gosto. Nada muito chamativo, tudo conforme os gostos dele. Dispunha de um computador bom e de periféricos, todos em bom estado. Ainda tinha uma família que, mesmo não sendo boa com ele, sustentava-o e lhe garantia abrigo, casa, comida e roupas lavadas. Tinha onde morar, o que comer, o que vestir, sustento básico e algumas poucas regalias. Uma vida boa até.


Mas nada disso valia a pena. Ele estava morto por dentro. O que ele realmente queria, ou melhor, o que ele realmente precisava, não era um amontoado de bens materiais e calculáveis. Não precisava - nem queria - uma família que o sustentava de forma mecânica e simplista. Não queria tudo aquilo, apenas ferramentas para mantê-lo preso e uniforme perante à sociedade na qual vivia. Jamais havia desejado estar ali, e não entendia o porque de ter de se conformar com aquilo se estar ali jamais fora uma opção, uma escolha, e sim uma imposição.


Precisava sim de amor. De carinho. De atenção. De compreensão. De afeto. De ternura. De complacência. Precisava de coisas que não podiam ser mensuradas como uma boa condição financeira ou social. Precisava de coisas que não podiam ser contadas ou vistas, sequer quantificadas de algum ou qualquer outro modo conhecido pelo homem, fosse lógico ou não, racional ou não. Precisava do intangível, do inatingível, do transcendental, do eterno, do estático, do imutável. Precisava de um chão, de algo no qual pudesse se firmar, de um solo firme para poder dar suas passadas trêmulas e incertas, abarrotadas de medos e pesares vis. Precisava estar arraigado numa verdade tamanha na qual nada, nem ninguém, até mesmo seus medos e sofrimentos, até mesmos seus inimigos - idealizados ou não - pudesse sequer chegar a estremecê-la, nem tocá-la. Ele precisava de um berço, uma fonte, uma fortaleza, um castelo de paredes e muralhas infindáveis e intransponíveis, nas quais ele encontraria o conforto real de uma vida irreconhecível até então, apenas fundamentada no que é petrificado e imutável, no que é real, no que ele jamais poderia perder. Ele precisava, sobretudo, de se sentir seguro, vivo. Ele precisava ter uma certeza.


Mas nada disso lhe era garantido até então. Tudo o que ele realmente tinha era fraco. Era como se vivesse sempre na beira do precipício, em cima de uma pedra que estivesse sempre prestes a rolar. Uma pedra completamente grosseira e hostil, de formas pontiagudas e inconcebíveis para sua morada, porém sempre se apresentando perfeitamente esférica quando qualquer coisa ameaçasse derrubá-la e jogá-la montanha abaixo, levando consigo ele e sua vida despedaçada, repleta de sentimentos aberrantes e disformes. Era impressionante para ele como tudo em sua vida, por mais certo que pudesse parecer, sempre estava prestes a ruir, sempre estava prestes a se mostrar mais uma de suas ilusões maldosamente plausíveis. 


Deu o primeiro passo, o que fez com que a dor se espalhasse por todo ele novamente. Não ligou, já que essa dor quase não lhe era mais importante. Foi até a escrivaninha onde repousava seu computador e pôs a mão em cima da madeira gélida e morta. Passou os dedos e notou uma fina camada de poeira, que agarrou-se a seus dedos quase como cola. Esfregou o polegar em cada um deles e livrou-se da sujeira incômoda. Observou os grãos de poeira caírem no chão, iluminados pelo forte e intenso luar. Aquilo era um ciclo: a sujeira que cobria a escrivaninha cobriria o chão, que iria para fundo da cama, que, com uma lufada inocente de vento, voltaria para a escrivaninha, e assim sucessivamente. E que não fossem os mesmos grãos, que fossem outros, o quarto, mesmo que limpo uma vez, voltaria a ficar sujo. E o ciclo se repetiria, até que ele morresse, para que o quarto permanecesse, para que a sujeira permanecesse. Era uma batalha inútil.


E não é assim a vida? Uma batalha inútil contra as desgraças que se abatem sobre nós? Era como se ele vivesse num mundo coberto por uma escuridão sem fim, e o ponto onde ele estivesse seria uma única fogueira, alimentada por uns poucos e mal colhidos galhos de madeira seca. A fogueira estava quase sempre se apagando, e necessitava de constante alimentação. Sua família se encarregava de obter a madeira, enquanto ele permaneceria ali, a salvo da escuridão sem fim num único pontinho efêmero de esperança. Até que um dia sua mãe não voltaria. Nem seu pai. Na tentativa de buscar mais lenha para a fogueira rudimentar e bruxuleante, eles se perderiam na escuridão, até que ele desse por falta e chorasse. Em vão, pois esse é o destino de tudo que é vivo: morrer anônimo em meio a vastidão enegrecida de um universo que não se importa com mais um de seus entes vivos separados e pouco importantes. E então seria a vez dele de alimentar a fogueira. Até que achasse outra fogueira e se unisse a outra pessoa para alimentarem juntos uma nova fogueira, para terem novas crias, que passarão a mesma idéia fútil de vida: uma eterna batalha inútil contra um destino cujo qual não há escapatória. A vida não tem sentido.


O destino de tudo é acabar envolto em trevas e propelido apenas pelo desejo infantil de fugir da dor e do sofrimento. Ele sabia disso, e assim fora a vida dele desde então. Sabia que limpar a sujeira não adiantava, mas continuava limpando-a. Sabia que alimentar aquela fogueira era inútil, mas continuava a jogar nela uma madeira qualquer conseguida em meio a um mundo hostil e competitivo. E o sofrimento maior vinha de não ter nada além disso: um ideal vazio, que não era dele, imposto por outros. A vida era um cárcere no qual você só sairia se morresse após sofrer toda a pena. A prisão perfeita, na qual a única fuga simples implicaria num sofrimento tamanho que desencorajava sua tentativa.


E era pior para ele, pois sofria mais ainda. Era sozinho. Triste. Sem amigos. Com uma família decadente e  egoísta. A limpeza que ele fazia - não contra a sujeira, mas contra sua dor - era sozinha e em vão. O pior nem era estar sozinho de companhia e ser levado por um grupo familiar distante e deslocado. O pior era não ter o que precisava. O pior era não ter todo o amor do qual necessitava em sua vazia vida. De fato o que empurraria ele a viver era o amor. O que impulsiona qualquer um é o amor. E ele não o tinha. Mantinha-se uma carcaça vazia.


Percebeu que o luar subia mais alto no céu. Há quantas horas estaria ali? Talvez até mesmo por dias ele estivesse trancado. Não sabia, pois a dor e o sofrimento eram tão forte sem sua mente que só via a dor de estar perdido e sem vida. Estava surdo para os outros, cego para o que tinha e mudo para expressar-se. A surdez era porque nada em sua vida atual poderia salvá-lo, logo, perder tempo ouvindo que ele precisava viver era inútil. A cegueira era porque nada do que tinha lhe era útil ou dotado de algum valor realmente bom. E a mudez fora causada pelo vislumbre do fim de esperança. Não podia dizer a ninguém que a vida era sem sentido, senão todos os quartos ficariam sujos, senão todas as fogueiras se apagariam instantaneamente! Talvez fosse um resquício de bons sentimentos ainda viventes nele. Ou talvez fosse a tal criatura de retalhos de sentimentos, esperando trazer mais pessoas para o fundo do poço com ele, apenas deixando que sofressem mais. Talvez todos tivessem uma criatura dessas em seus corações, que só apareceria caso as pessoas fossem abandonadas à própria depressão, como ele.


Andou até a luminosidade vinda da janela e que caía no meio do quarto e sentiu a dor da luz penetrando suas pupilas largamente dilatadas, mas novamente ignorou. A luz da lua era como um caminho a ser seguido, levando-o para o paraíso eterno, livre da dor e do sofrimento. Ou talvez uma ponte ilusória, que serviria como truque para fazer todos seguirem ela e caírem num pântano lodoso, que lentamente tragaria-os para um fim doloroso, lento e inevitável. Fosse o que fosse, não importava, já que uma hora ou outra todos se livrariam do cárcere da vida, fosse pelo sofrimento concentrado num único instante ou o parcelado numa vida inteira de dor.


Olhou para a janela e viu as trevas caindo do céu e cobrindo tudo. Do meio do quarto observava a abertura na parede, tampada pelo vidro e pela madeira que recobria as pontas. Um vento frio e desagradável entrava pelo cômodo, um prenúncio de que a noite pioraria mais ainda e se tornaria mais fria e morta. 


Deu uns poucos passos para frente, até que a luz deixasse de iluminar seu rosto pálido e sofrido e começasse a iluminar seu peito. Pôs as mãos na parede e a cabeça levemente para fora do quarto. Respirou o ar noturno, aquele mesmo ar morto que trouxera o prenúncio decadente de uma noite gélida e de um dia ainda pior. Sentiu, por uns instantes, um sorriso tomando o rosto. Fora mais um lapso de esperança. Porém, o sorriso tornou-se vazio, mesmo permanecendo no rosto. A sujeira havia vencido. Sua fogueira havia apagado naquele exato instante.


Mirando o céu sem estrelas, desejou por um instante que tivesse coragem de andar até aquela janela...

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Adeus

Ele estava errado.

Vivia uma vida de mistérios e segredos para consigo mesmo. Escondia de si os segredos mais sórdidos que tinha. Colocava atrás das maiores muralhas feitas pelos seus medos e fracassos os seus maiores descontentamentos. Guiava-se por meio de uma bússola falha, composta por ideais falsos que não eram seus, que apontavam para um lugar que ele até gostaria de chegar, mas que lhe seria tão vazio quanto seu corpo neste exato momento. Abria-se totalmente para os outros, mas mantinha-se fechado para sua própria consciência. Sentia cada vez mais o desprazer do erro em sua vida, e isso apenas  o deixava pior.

Ele não tinha perspectivas.

Vivia de modo perdido. Um estranho em seu próprio mundo. Tinha o mapa em sua frente, feito por ele mesmo, mas não conseguia ver mais do que uma série de borrões disformes, que ele interpretava como apontarem para uma região onde estaria a sua salvação. Nunca passou de um engano, pois ele repetira o caminho por toda a sua existência, e em nenhuma vez ele chegou sequer perto de estar salvo. Pelo contrário: O maldito mapa sempre teimava em lhe indicar os seus medos na hora que ele menos precisava. Era até engraçado, pois quando ele os procurava, jamais achava, mas sempre dava de cara com eles nas piores horas.

Ele não gostava de si.

Odiava-se infinitamente. Não sabia exatamente o porque, apesar de ter a resposta sempre dentro de si, provavelmente escondida ou perdida. Não se entendia: Tinha planos perfeitos para todas as situações, porém jamais conseguia executá-los da maneira que queria. Por vezes sequer conseguia por eles em prática. Enquanto permanecia desperdiçando seu intelecto e vontade nesses planos sem êxito, odiava-se cada vez mais por não conseguir sair desse círculo vicioso de falhas e mais falhas. Era vítima de uma cruel auto-sabotagem. Sentia uma ódio por si tão intenso que poderia até senti-lo em seu corpo, tomando-lhe lentamente as forças. Mas somente as perdia quando, insistentemente, tentava matar aquele outro que via sempre que olhava para algum maldito espelho.

Ele era depressivo.

Pessimista. Vivia de modo a odiar o hoje, amaldiçoar ontem e fugir do amanhã, em tentativas tão fracas e deploráveis que apenas caía novamente na prisão que era ter que lidar novamente com seus ontens de falhas, com seus hojes de ódio e com seus amanhãs temerosos. Sentia-se como se estivesse afundado num poço de sofrimento, dor e tortura, onde não conseguia fugir nem nadando, mesmo tendo tal habilidade. Como se fosse o poço inteiro que o puxava para baixo, lançando suas garras vis sobre aquele corpo já quase inerte e semiconsciente, mas ainda vivo, apenas para sofrer, ele afundava. Na verdade não era o poço puxando ele. Era sua própria falta de vontade em viver que o levava para baixo, num desejo inconsciente de encontrar o seu fim de uma maneira simples e que não lhe causasse mais do que uma simples ilusão, para usar de desculpas ao entrar no prestar de contas sobre o que fez para se salvar com sua perturbada consciência ávida por respostas plausíveis e reconfortantes.

Ele estava morto.

Morto por dentro. Sua alma já havia ido muito antes que ele. Sua essência havia se dissipado num pequeno vórtice de vazio e desespero. Não sentia mais nada além do ódio comum e conhecido por si. Nem a depressão terrível o afetava mais. Estava tão profundamente entranhada nele que já não conseguia encará-la mais como um sentimento, apenas como um padrão de comportamento, um meio de vida, um impulso que o guiava através das cortinas negras que eram sua vida, um constante velório pessoal em memória ao seu desvanecido eu, que nem ele mesmo teve a chance de conhecer como realmente fora um dia. Se é quem algum dia aquele pedaço de nada destruído se manifestou como alguma coisa visível neste mundo. 

Ele estava sozinho.

Só. Mais ninguém andava com ele. Seu caminho era como uma avenida, onde ele via todos os seus fracassos estampados em cartazes enormes, que desciam de prédios colossais, desde seu ápice até cair no chão e rolarem pelo cimento frio. Nada era colorido, um marasmo preto e branco que dava um tom de infinitude à todo aquele ambiente inóspito que era sua vida. As vezes via alguma luz, um lampejo, talvez uma viva alma que sem querer cruzou aquele caminho amaldiçoado e esquecido. Mas ele não via mais. Seguia em frente, pois era o único caminho, e nada poderia fazer contra. Seguia em frente, pois o que já havia passado era sufocante e desesperador. Seguia em frente, principalmente para não desaparecer no meio daquela imensidão ameaçadora.

E ele assim vivia.

O engraçado era que todos o viam. Ninguém parava para cumprimentá-lo. Ninguém lhe dava a atenção que merecia. Ninguém se importava. Nunca. Jamais.

Seus amigos já haviam sumido, sem deixar rastros. De forma inteligente até, já que saberiam que ele poderia segui-los, e a única maneira de se livrar dele era sumir sem deixar vestígios.

Sua família já lhe considerava adulto, um homem feito. Capaz de se virar sozinho. Era engraçado, pois parecia que ele também poderia ser capaz de gerar o carinho e atenção dos quais necessitava para viver.

Seus amores nunca existiram. Uma, apenas uma, parecia que até o via. Bem, parecia. Ignorava-o de forma que só via o quer queria ver, como se o errado fosse ele. Como se não tivesse perspectivas. Como se não gostasse de si. Como se estivesse depressivo. Como se estivesse morto. Como se estivesse sozinho.

Mas ele não estava.

Jamais esperem que ele se despeça.

Pois quando ele sumir, será para nunca mais voltar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Escute o Silêncio.

O que as vezes pode até parecer impossível torna-se visível quando a situação demanda que sua necessidade se faça presente.


Até que você precise, você jamais irá entender qual o significado do silêncio em sua vida.


Isto assim é porque o silêncio é visto somente como a ausência, quando na verdade também pode ser a manutenção da presença.


Pedras, árvores, gramados, animais, mares, lagos, oceanos, o céu... Tudo isto mantém-se em silêncio o tempo todo, nem por isso se tornam esquecíveis ou ignoráveis. Pelo contrário. Lembra-se às vezes mais do céu, do mar e das florestas, do que aqueles que vivem a falar todos os dias para os que escutam, mas não ouvem.


A resposta mais arrebatadora as vezes não vem de palavras intensas ou ofensivas, mas de um simples momento de silêncio, que pode ser mais fatal que a mais terrível das frases existentes. 


A música mais bela as vezes não vem de uma sinfonia bem arranjada, composta por um gênio tão comum quanto eu ou você, mas sim da total falta de sons, ritmados ou não, belos ou não. Apenas o fato de tudo que transgride o silêncio sumir de uma vez só e deixar o verdadeiro belo se manifestar é o suficiente para vislumbrarmos, por um breve momento, a verdadeira razão para o silêncio ser a mais bela das canções.


A contemplação mais bela da natureza não é feita quando há alguém lhe mostrando o caminho, quando há algo a mais entre essa percepção, quando tem que se fazer um esforço forçado e doloroso, mas sim quando não há nada para atrapalhar, apenas o silêncio regendo sua orquestra secreta, nos guiando para a iluminação da percepção de um momento verdadeiramente real e sublime.


É difícil, complicado, por vezes impossível. Mas, às vezes até mesmo em meio ao caos de mil diferentes sons, podemos escutar o silêncio. 


Ele grita. Ele chora. Ele berra. Irrompe do meio de tudo que o acoberta para se mostrar ali, presente, digno de ter um pouco de atenção dada a ele. 


O problema não está em ouví-lo, e sim em saber como se faz para ouvir algo que passa desapercebido.


O silêncio nem sempre vem na forma da falta de som.


Assim como todos pensam, o silêncio é também a ausência.


Mas não é só a ausência ordinária que é  passada de um para o outro, como se fosse a simples falta de sons.


As vezes não ouvimos o silêncio do outro.


As vezes não ouvimos o silêncio das coisas.


E nunca ouvimos o nosso próprio silêncio.


O castigo por cometermos tamanho erro é deixarmos passar a resolução óbvia de grande parte de nossos problemas. Não ouvir, não prestar a devida atenção, não ceder - seja tempo, boa vontade ou amor - a um outro alguém que precisa, ou até mesmo a nós mesmos, nos faz não ver que os nossos problemas nascem muitas vezes dessa negligência.


Negligenciar o silêncio é negá-lo de uma forma tão triste que chega a ser estúpida.


Portanto, escute o silêncio. Dê a si mesmo um momento consigo. 


Longe de pensamentos, longe de preocupações. Medite. Entre em contato com o seu mais profundo eu. Alheio a crenças, opiniões, conjunturas, fé, o que for. Escute o que você tem a dizer a si mesmo. Se acredita que tem uma alma, escute-a. Se acredita que é energia pura, sinta ela fluindo em você. Se acha que só existe sua mente, esqueça o que há nela e cave bem fundo na mesma, até se perder dentro de você.


E escute o silêncio.


E então, escute tudo à sua volta.


Escute como cada pausa entre a fala das pessoas gera um momento de equilíbrio entre tudo. Escute como a natureza mantém seu ritmo incessante, mesmo com o interferir constante dos humanos. Escute como entre cada nota de musical há um breve momento onde o som se dissipa, e entre todas as outras notas, de todos os instrumentos, surge uma unidade incapaz de ser percebida com um exame superficial da vida. Perceba que o silêncio está por trás de cada som, como o antagonismo dele, arraigado nele, colado nele, como a outra face de uma moeda, porém esquecida. Sem um não há outro.


E então, quando perceber isso, escute o silêncio do outro.


Dê-se a oportunidade de observar como as pessoas preferem o silêncio à dizer algo concreto. Perceba como abandonar uma conversa as vezes é um modo de deixar claro que ela continua, mas não com palavras, e sim com sentimentos, manifestados por gestos e maneirismos. Entenda que não responder é também uma resposta. Vislumbre a infinita capacidade de uma pessoa de não lhe dizer nada com palavras, mas te fazer entender tudo com um silencioso e discreto olhar.


Quando entender isso, quando finalmente tiver escutado o silêncio, você achará a resposta.


Mas não ache que ela deva ser compartilhada. Não da forma comum, não como normalmente faríamos. Porque a verdadeira compreensão do que é escutar o silêncio através da torrente inimaginável de infinitos sons não é traduzida por simples palavras, mas pela experiência de um outro momento de igual profundidade, como o anterior.


Então, olhe para a pessoa. Toque-a se quiser, de maneira delicada.  Já entendeu o seu silêncio, o silêncio das coisas e o silêncio dela.


Passe tudo o que você aprendeu sem dizer uma palavra sequer.


E não se esqueça, jamais, de escutar o silêncio.


"It truly makes the most beautiful music.


Everything it has to give.


It's everywhere hidining the listener.


Without it, I could not live...


Silence."


Sonata Arctica - ... of Silence

Descrição do Mês

Essa postagem é para inaugurar a nova sessão do Blog, a Descrição do Mês. 

É bem autoexplicativa (ou seria auto-explicativa?). A cada mês eu e a Dona Inconstante faremos uma descrição nova, alternando entre o autor. Nesse mês de Novembro serei eu, e ela já está postada. Para o próximo mês, Dona Inconstante fará uma nova. A idéia é sempre renovar, já que não somos constantes, né?