Era tudo o que ele jamais conseguia enfrentar. O maldito labirinto.
Ele era estranho. A angulação das paredes era tortuosa. De um lado, se você olhasse, pareciam ângulos obtusos, como se as paredes caíssem para trás, abrindo caminho... Mas logo após esse vislumbre esperançoso de saída, elas pareciam estarem agora regidas sob ângulos agudos, como se se fechassem, e mantivessem o labirinto mais sem saída do que já parecia.
Tudo ali era penumbra. Ao mesmo tempo que uma fraca luz vinha de cima, de não se sabe onde, ela se tornava bruxuleante e trêmula, como se sempre estivesse prestes a se apagar. Aquele fio de esperança, um cair de luz sobre as trevas inquietas daquele lugar sinistro, logo era rompido, já que as vezes parecia que a luz era engolida por toda aquela escuridão nefasta, e não que se perdia ao resvalar nas paredes, gerando as sombras tão temidas e cegantes.
O ar era úmido e frio, assim como o chão de terra e as paredes de rocha. Isso dava uma sensação parecida com a de um calabouço. Não que ele já estivesse estado em um, mas sentia-se como se tudo aquilo existisse sendo uma prisão, de onde jamais poderia - ou deveria - sair. Exatamente como um calabouço era. A pedra das paredes era gélida, e o toque lhe causava arrepios. Os limites daquela existência dele eram sempre assim, machucavam, causavam dor, sofrimento, medo, mal-estar... Uma torrente de malefícios que só podiam ser lembrados, sentidos e contabilizados por ele devido ao recorrente reaparecer deles em sua vida. O labirinto era seu cárcere, e aquele mal que o cercava eram as grades.
Por fora ele sempre podia ver sombras e vultos. Nunca tinha conseguido ver eles de fato, mas sabia que os andarilhos podiam vê-lo perfeitamente. Eram enormes, amedrontadores, disformes, e ainda assim ele conseguia ver algo ali. Uma massa amorfa de caos contida numa forma perfeitamente compreensível. Vagavam pelas paredes como se corressem por elas. Deslizavam sempre silenciosos, furtivos e seguros, mantendo uma sutileza sinistra. Mas, mesmo sutis, sua grosseria era sempre visível, de uma forma ou de outra. Como monstros envoltos em uma aura de calmaria. Como aberrantes criaturas fantasiadas de pessoas. Como lobos em pele de cordeiro. Em pele de pastor. As vezes até mesmo em pele de gente.
Se o labirinto era o cárcere e as barras de ferro eram as paredes e o chão, os carcereiros eram tais sombras. Sempre furtivas, elas iam e voltavam, sempre a intervalos regulares, porém nunca no mesmo tempo. Era anormal a forma com a qual elas lidavam com ele. Chegavam perto, sempre invisíveis, jamais mostrando sua real aparência, mas sempre escancarando o que eram. Pareciam na verdade um código, tão óbvio quanto complexo. Ele sabia como decifrá-los, mas nunca conseguia. Ou nunca queria. Mas ele jamais iria saber.
Seus carcereiros - não se sabe se gentis ou cruéis verdadeiramente eram - alimentavam-no sempre. Não de forma adequada: Sempre davam o suficiente para ele não morrer de fome, porém sempre dando o necessário para que esta se instalasse novamente nas vísceras dele, retomando o ciclo de sofrimento de estar sem o sustento necessário para sobreviver àquele lugar. O pior de tudo é que o alimento ali era escasso. Pelo menos assim parecia. Ele alimentava-se da luz, que lhe era a esperança naquele lugar negro. Ela, vindo fraca dos céus, mal conseguia alimentá-lo. A que caía sobre ele era roubada pelas trevas que o rondavam, acabando por apenas funcionar como uma gota de água dada a um sedento no meio de um deserto escaldante. Logo, o único modo de ter a quantidade que precisava de esperança era aceitando-a de seus carrascos. Era engraçado como a única coisa que mantinha sua fraca sobrevida era justamente o que garantia aquele sofrimento todo. A esperança deixava-o vivo e consciente, mas matava-o dia após dia.
Parecia, na verdade, que não era alimentado de fato. Parecia, na verdade, que ele recebia os restos de luz que aqueles vultos não queriam mais. Como se jogassem lavagem aos porcos, eles desperdiçavam ali tudo o que não queriam mais. Uma situação horrenda, visto que ele se alimentava - ou se matava, ninguém podia dizer - do que as sombras não queriam mais, ou não faziam questão de ter e lhe davam. Como um mendigo faminto a praticar sua mendicância cega em meio a uma avenida de pessoas esnobes, procurando apenas dar a ele o que ele queria como forma de expiar seus pecados para com sua moral - ou com ele mesmo.
O pior não era nem estar ali e ser alimentado - ou mantido vivo - por eles. O pior mesmo era não ser notado. Ele via os seres, mas estes não o viam. Nunca viam. Nunca o enxergavam. De fato as idas deles ali somente eram para se livrarem dos restos de luz - a esperança vã dele - e irem embora. Nem os gritos esganiçados de sua garganta, nem o bater frenético de suas mãos sujas de terra e pó, nem os gritos desesperados de dor pelas feridas, nada, absolutamente nada chamava a atenção. Ele nunca sabia se o que doía mais era a vida no limite da dor física e mental ou o abandono que sofria e a falta de perspectivas.
As vezes, mas somente as vezes, um dos vultos via ele e lhe estendia a mão. Era como se ele se tornasse visível por alguns instantes. Porém, sempre dava errado. Ou ele estava em um estado de semiconsciência febril e delirante devido à falta de sustento, ou ele conseguia correr do canto daquele labirinto e chegar até a sombra. Porém, quando conseguia encostar na mão dela, quando a agarrava com todas as suas forças e se prendia naquele ponto de esperança mais estável que a luz que a ele davam, o vulto corria. Soltava-o com um safanão sem dó, jogando-o grosseiramente de volta ao labirinto. Fugiam dele ao ver o que ele era, e corriam de medo para purificar a mão, com medo de que se tornassem algo como ele, ou que absorvessem parte do que ele era.
As vezes ele pensava se, ao invés deles serem os vultos, ele que não era um deles.
As vezes ele pensava se, ao invés deles serem os vultos, ele que não era um deles.
As vezes ele pensava que os monstros não eram eles, mas sim ele.
As vezes ele pensava sobre se a verdadeira coisa aberrante ali era ele, e não o labirinto.
As vezes ele vertia tantas lágrimas por isso que lhe enrugavam o rosto e secavam suas vísceras.
Porém, mesmo com esse sofrimento todo, aquilo perdurava, dia após dia, semana após semana.
Era assim que ele vivia. Era assim que ele era.
Era assim que era a vida dele.

Nenhum comentário:
Postar um comentário